Projetos, viagens, conferências, tudo foi cancelado naquela manhã, dois anos atrás, quando Michel Le Van Quyen, pesquisador de neurociência no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França, acordou com uma paralisia facial. Foi diagnosticado esgotamento e lhe prescreveram repouso absoluto. Foi assim que descobriu os benefícios do silêncio, que, uma vez curado, decidiu pesquisar.

O resultado é Cerebro y silencio (Plataforma), no qual, valendo-se da neurociência, analisa os diferentes tipos de silêncio e suas consequências em nosso corpo e cérebro, recorrendo a pesquisas recentes. “Há um silêncio exterior, que é a ausência de barulho, e um silêncio interior: aqueles momentos em que conseguimos reduzir o barulho de fundo de nossos pensamentos. Ambos são essenciais para a nossa saúde”. Um livro esclarecedor, que oferece chaves para viver em equilíbrio.

A entrevista é de Ima Sanchís, publicada por La Vanguardia, 05-11-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O silêncio regenera o cérebro?

Em 2001, Marcus Raichle demonstrou que um cérebro em repouso consome tanta energia como em pleno rendimento, e chamo essa atividade cerebral em repouso de energia escura.

Por que não sabemos muito sobre ela?

Isso mesmo, mas sabemos que o silêncio do cérebro permite que ele se regenere. É essencial para a criatividade, memória e a construção de si mesmo.

Nós construímos não fazendo nada?

São momentos de devaneio, atividade à qual dedicamos metade do nosso tempo. Quando em nosso cérebro reina a energia escura, viajamos no tempo, sentimos sensações muito vívidas associadas ao passado e ao futuro, e assim se consolida a identidade.

Como o silêncio afeta os neurônios?

Faz com que se reproduzam. Em um estudo publicado em 2013, imergiram no silêncio camundongos, durante duas horas por dia, e observaram como uma quantidade maior de novas células foi criada no hipocampo. Sabemos que dois minutos de silêncio são suficientes para diminuir a pressão arterial e a frequência cardíaca.

Mas, não existe o silêncio absoluto.

Certo, nossos ruídos internos sempre estão aí, por isso temos que recorrer aos sons que são bons, como os da natureza.

Qual é o seu efeito?

O murmúrio do córrego, do vento, dos insetos ou o rangido dos galhos produz um fenômeno psicológico, a ASMR, de acordo com a sigla em inglês, que se traduz como resposta sensorial autônoma do meridiano.

Em que consiste?

Em uma sensação agradável de formigamento na ponta dos dedos ou calafrios no couro cabeludo, é como um estremecimento musical e se associa a uma secreção de dopamina, o hormônio da felicidade.

Após anos de estudo, o Dr. Qing Li me diz que caminhar pela floresta estimula o sistema imunológico.

Diminui o hormônio do estresse, reduz a pressão arterial e o açúcar no sangue, melhora a saúde cardiovascular e metabólica, a concentração e a memória.

É incrível.

Inclusive, sabemos que após uma intervenção cirúrgica, os pacientes se recuperam melhor, mais rápido e usam menos analgésicos, se seu quarto tiver vista para uma paisagem natural.

O silêncio também deve ser interior.

Convém fechar os olhos e ir para dentro. Fechar os olhos abranda as ondas cerebrais. Piscamos não apenas para umedecer os olhos, mas também para o cérebro descansar.

Curioso.

De fato, de acordo com vários estudos, se você quiser perceber melhor as emoções de alguém, feche os olhos e concentre-se em sua voz.

O silêncio ajuda a combater a tendência da mente a pensamentos negativos?

Nenhum cientista questiona que a prática do silêncio da meditação evita esses pensamentos negativos. Mas, isso já foi dito por Pascal: todo o infortúnio dos homens vem de não saber permanecer em repouso em um quarto.

A consciência na respiração é um caminho para o silêncio.

Sessões diárias de respiração profunda acabam resultando em uma desaceleração da frequência cardíaca, diminuição da pressão arterial, diminuição da taxa de cortisol e o sistema imunológico se vê fortalecido.

Por quê?

Nesta situação de calma e bem-estar, o coração produz um ritmo especial capaz de sincronizar outros sistemas fisiológicos como as ondas cerebrais, a pressão arterial, a digestão e o sistema imunológico. Você tem que aprender a parar e respirar.

Custa-nos muito.

Em um experimento, foi pedido aos participantes que se mantivessem por quinze minutos sem fazer nada, a única possibilidade de distração era se dar descargas elétricas voluntárias.

E houve quem utilizou as descargas?

67% dos homens e 25% das mulheres preferiram sofrer, antes que ficar tranquilos em silêncio.

O que acontece conosco?

Vivemos em um mundo governado pela economia da atenção: sugestões, distrações, bombardeio de informações, interrupções contínuas no trabalho …, que causam sobrecarga cognitiva, esgotam o cérebro.

Com quais consequências?

Quando a pressão é excessiva, o cérebro se desconecta, bloqueia, por isso há aqueles que passam em branco por um exame.

O barulho mata.

Qualquer pequeno barulho que percebemos desencadeia a secreção de hormônios que coloca o cérebro em alerta. O barulho auditivo tem um efeito nefasto no sistema imunológico e no sistema cardiovascular.

É assim que vivemos.

Segundo o relatório da Agência Europeia de Meio Ambiente, o efeito do barulho mata 10.000 pessoas por ano. Foi demonstrada uma relação entre exposição ao barulho, diminuição do rendimento escolar e aumento do risco de dislexia. O barulho é uma agressão grave para o nosso rendimento cognitivo.

Categorias: Entrevista

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